29 de junho de 2010

De Lisboa a Sintra, walking with Dinosaurs, Metallica e Slash

Recentemente fiz uma viagem a Lisboa e aproveitei para visitar alguns locais: desde a belíssima cidade de Sintra até à cidade lisboeta. Voltei a visitar o fantástico Palácio da Pena em Sintra e passeei pelos Jardins e Palácio da Regaleira. Muito, muito interessante! Tinha imensa vontade de visitar este local e fiquei maravilhada.






Tive ainda oportunidade de visitar o Museu Calouste Gulbenkian e o Museu Nacional de Arte Antiga.



Deambulei pelo parque das nações, pela praça do comércio (o chamado terreiro do Paço), pela Rua Augusta, Rossio, Marquês de Pombal e até um pouco pelo Parque Eduardo VII.
Tive ainda a oportunidade de assistir a um evento onde os dinossauros ganharam vida: “Walking with Dinosaurs” the live experience. Adorei ^^

Tive a dose anual de Metallica, mas desta vez a dobrar (o que foi duplamente bom) e foi ainda melhor pelo facto de ser um concerto indoor e não em festival. Memorável.



Marcantes também os concertos de Volbeat a anteceder Metallica, e claro, os Metallica.

Como não podia deixar de mencionar… não pela cidade lisboeta, mas aqui pelo Porto: extraordinário o concerto do Slash no passado dia 22. Acompanhado pelo Myles, dos Alter Bridge, deliciou completamente o meu apetite por mais um concerto. E que concerto…

9 de maio de 2010

A servidão humana



Terminei a leitura d’A Servidão Humana de William Somerset Maugham. Adorei!

É uma obra fantástica que nos aproxima das personagens de tal modo que se torna um vício a sua leitura e é complicado pousar o livro.
Não é uma autobiografia mas, tal como diz o autor, é “um romance autobiográfico”. De facto, após ter lido um pouco sobre o autor encontrei algumas semelhanças com a personagem principal, Philip.

A obra centra-se em Philip e no trajecto que este faz ao longo da sua vida. Ele desde cedo fica órfão, sendo que após perder a mãe se muda da cidade de Londres para o campo, onde vai viver com os seus tios. O seu tio é um vigário e então desde cedo Philip é confrontado com um mundo onde predomina a religião, sendo que depois frequenta um colégio interno também ele associado à vida religiosa. Philip tem uma deformidade: pé boto. Isto é e sempre foi o ponto fraco dele. É a sua fraqueza e de imediato sente isso quando é confrontado com os diversos olhares e até palavras pelo colégio. Mas esta fraqueza impera ao longo da sua vida… O Philip vai deixar-se afectar por esta deformidade ao longo dos anos descritos na obra. Apenas no fim, quando ele chega ao final da procura de si mesmo, me parece ter chegado também ao final desta fraqueza.

Os mais afortunados na vida são os que têm tão pouca consciência de si mesmos como as abelhas numa colmeia, pois têm mais probabilidades de serem felizes: as suas actividades são partilhadas por todos e os seus prazeres são apenas isso, prazeres, porque desfrutados em comum P. 56

Philip sempre tivera um gosto pela leitura e esta fazia com que ele tivesse o desejo de conhecer o mundo. Essa imaginação e o facto de viver no litoral ao pé do mar fazia com que Philip desejasse “navegar por mares nunca antes navegados” e partisse em descoberta do desconhecido. É com este desejo de liberdade que ele deixa o colégio, deixa o mundo religioso e parte para a Alemanha.

Liberdade! Finalmente era dono de si mesmo. Por força de hábito, agradeceu inconscientemente a Deus por já não acreditar n’Ele. P. 136

Quando volta da Alemanha para junto dos seus tios, Philip vai para Londres e começa a trabalhar na área de contabilidade. Estava sozinho preso ao cálculo e à infelicidade. Decide então “libertar-se” novamente e vai para Paris. Decide ser pintor.

O que sou capaz de fazer é o único limite do que posso fazer. P. 242

Após uns anos Philip começa a reflectir se seria essa a melhor opção de vida e reconsidera voltar para Inglaterra. Quando a sua tia morre ele volta para casa definitivamente. É aqui que ele decide regressar a Londres, mas desta vez para ser médico.

Uma juventude feliz é pura ilusão, a ilusão daqueles que a perderam. P. 139

A vida não valeria a pena ser vivida se me preocupasse com o futuro e ao mesmo tempo com o presente. Quando as coisas estão na pior fase acontece sempre alguma coisa. P. 365

Agia como se fosse uma máquina movida por duas forças, o ambiente que o rodeava e a sua personalidade; a sua razão era um espectador que observava os factos sem poder interferir. P. 446


Entre a medicina, o amor, a paixão e a tristeza surgem muitos episódios e muitas situações que levam Philip a percorrer um caminho muito conturbado.
Um caminho onde ele é servo. Um caminho onde ele procura ser feliz e não consegue. Apenas no fim ele alcança o que procurava.

Achei notável este trajecto e achei fantástica a narração por parte do autor. Uma bela obra que aconselho a lerem. Ajuda, acima de tudo, a reflectir sobre a "servidão humana" e de como é sermos servos da selva humana. Ajuda, acima de tudo, a reflectirmos na simplicidade com a qual podemos encarar a vida e as nossas decisões, recorrendo sobretudo a nós mesmos e não às nossas expectativas.

22 de março de 2010

Alice’s Adventures in Wonderland – Lewis Carroll


Who in the world am I? Ah, that’s the great puzzle! p. 24

Aproveitando a febre que surgiu com o novo filme de Tim Burton deste mundo sem sentido da Alice, decidi invadir este mundo de maravilha e perder-me um pouco nessa falta de sentido.

É uma falta de sentido que por vezes faz mais sentido do que o que tem sentido faz. E são afirmações semelhantes a esta que acabei de escrever que vão trocando as nossas ideias. Mas que têm lógica e que nos fazem sorrir pelos joguinhos que provocam nas nossas cabecinhas - mesmo que não nos consideremos crianças. É, portanto, um conto para crianças e não só! É um conto para adultos e para qualquer pessoa que esteja disposta a ler algo inocente e divertido.
É um mundo fantástico, é um mundo de diferentes coisas, novas histórias e diversas explicações. É um mundo irreal, sim. Mas é um mundo semalhante ao nosso. É um mundo de nonsense e o nosso também o é. É um mundo onde as formas alteram, desvanecem, diminuem e aumentam… Mas também nós mudamos e estamos constantemente sujeitos a mudanças.

Deixo aqui umas palavras de Lewis Carroll escritas em 1976:

An Easter Greeting to Every Child Who Loves "Alice".

Dear child,

Please to fancy, if you can, that you are reading a real letter, from a real friend whom you have seen, and whose voice you can seem to yourself to hear wishing you, as I do now with all my heart, a happy Easter.
Do you know that delicious dreamy feeling when one first wakes on a summer morning, with the twitter of birds in the air, and the fresh breeze coming in at the open window--when, lying lazily with eyes half shut, one sees as in a dream green boughs waving, or waters rippling in a golden light? It is a pleasure very near to sadness, bringing tears to one's eyes like a beautiful picture or poem. And is not that a Mother's gentle hand that undraws your curtains, and a Mother's sweet voice that summons you to rise? To rise and forget, in the bright sunlight, the ugly dreams that frightened you so when all was dark--to rise and enjoy another happy day, first kneeling to thank that unseen Friend, who sends you the beautiful sun?
(…)
This Easter sun will rise on you, dear child, feeling your "life in every limb," and eager to rush out into the fresh morning air--and many an Easter-day will come and go, before it finds you feeble and gray-headed, creeping wearily out to bask once more in the sunlight--but it is good, even now, to think sometimes of that great morning when the "Sun of Righteousness shall arise with healing in his wings."
Surely your gladness need not be the less for the thought that you will one day see a brighter dawn than this--when lovelier sights will meet your eyes than any waving trees or rippling waters--when angel-hands shall undraw your curtains, and sweeter tones than ever loving Mother breathed shall wake you to a new and glorious day--and when all the sadness, and the sin, that darkened life on this little earth, shall be forgotten like the dreams of a night that is past!

Your affectionate friend,
Lewis Carroll
Easter, 1876.

6 de fevereiro de 2010

Anna Karenina - Tolstoi



O romance começa com a situação de infidelidade de Oblonski (irmão de Anna Karenina) e de como Dária reage. Aqui está um bom prenúncio.

Aqui achei interessante a reflexão que o autor nos proporciona ao nível dos diferentes papéis de género, digamos, na sociedade em que se inseria. Era uma sociedade conservadora de facto, com o seu quê de moderno, mas afinal de contas é na mesma uma sociedade patriarcal. Dária, mulher traída, demonstra muito bem com alguns dos seus pensamentos a posição socialmente subordinada da mulher, os papéis parentais que devem ser assumidos, a preocupação com as relações familiares. Demonstra muito daquilo que ainda hoje ocorre.

Achei bastante interessante como numa sociedade tão diferente e distante haja tantas semelhanças com o actual, com o presente. Tolstoi remete-nos para a sociedade russa do séc. XIX é certo, mas remete-nos também para a nossa condição e para aquilo que nós vivemos no dia-a-dia. Acho isso louvável. Acho fantástico que por vezes me consiga identificar com uma situação ou personagem de uma sociedade russa do século XIX. Essa é uma das razões, creio, de Tolstoi ser intemporal e universal.

Esta parte inicial remete-nos para algo que adorei: a descrição do sentimento.
Não é incrível o modo como Tolstoi consegue descrever a alegria, felicidade, a tristeza?

Outra coisa que é fantástica nesta primeira parte são as personagens que vão desfilando. Temos já apresentadas diversas personagens e cada uma é mais interessante do que a outra. Temos Oblonski, bom mas infiel; temos a sua frágil mulher Dária; Lévin, Anna, Kiti, Vronski...

Outro aspecto maravilhoso na escrita do autor é o modo como ele descreve as situações e o modo como nos faz sentir realmente os sentimentos (peço desculpa pela redundância) dessas personagens nessas situações. Quem não sentiu o que o Lévin sente pelo facto da Kiti ser como o sol para ele? E o Vronski... não parece que nos encontrávamos dentro do cérebro dele quando conheceu Anna e sentiu de imediato toda a atracção por ela? Eu consegui sentir essa atracção pois Tolstoi colocou-me dentro da cabeça da personagem e sem dúvida que é um mestre ao conseguir fazê-lo.

Voltando à questão da sociedade...
Em termos políticos houve uma constante referência à tendência ora conservadora, ora à tendência liberal. É um tema que me parece dominante e sem dúvida que irá prevalecer nas restantes partes da obra com discussões em terno dos camponeses, trabalhadores e dos capitalistas e das suas mais-valias. Sem dúvida que a revolução e o comunismo são dois conceitos-chave pelo que foi dado a entender destas primeiras páginas.

Isto remete-nos para uma dicotomia que a mim me pareceu óbvia: campo/cidade.
A personificar o campo surge Lévin... e é ele que aproxima estes dois mundos separados. Tal como existe o campo e a cidade, também Moscovo e Petersburgo surgem como opostos e como "mundos diferentes".


Toda a diversidade, todo o encanto, toda a beleza da vida se compõe de luz e de sombra. (P. 51)


Esta bela frase remete-nos para esta questão dos opostos. Tal como a luz e a sombra, a cidade e o campo... existem muitas outras oposições, a felicidade e a tristeza, o amor e o ódio...

É como diz Tolstoi: tudo "se compõe de luz e de sombra".

Nesta primeira parte, sem dúvida que também é realçado Lévin. Lévin surge com o intuito de se dirigir a Kiti para a pedir em casamento. É demonstrado o seu amor, e a pureza do seu amor. É um amor tão puro e no entanto Kiti vê-se confusa devido a Vronski, sedutor e fonte de atracção. Há o devaneio, a paixão e o amor. Há o constrangimento social para a escolha do "melhor partido"... Há todo um conjunto de coisinhas... e há Anna Karénina. Anna Karénina surge desde início para uma reconciliação de seu irmão Oblonski com sua mulher Dária.
Mas será que também surge como o motivo de separação definitiva de Kiti e Vronski? E o que será de Kiti? E de Lévin? E o que será de Anna Karénina?

Anna Karénina... como referiu Kiti em relação a ela "há qualquer coisa de estranho, demoníaco e encantador..." (P. 92).

Mais uma vez penso nos opostos... penso na união e na separação, penso no anjo e no demónio, penso na luz e na sombra.

A segunda parte começa com a “doença” da Kiti. Começamos portanto com um desgosto de “amor”. Sim amor, pois acredito que não era esse o sentimento que Kiti nutria por Vronski.
Aliado a este desgosto surge também uma certa quebra na “harmonia” familiar da irmã de Kiti (Dolli) e do irmão de Anna (Oblonski).
Tudo isto acontece quando Anna faz a viagem de partida. Tudo começa a esmorecer. E também Kiti parte para uma viagem ao estrangeiro.
Quando Anna volta ao seu meio... ela vê-se “entre mundos” sociais. Ela não encara a sociedade da mesma forma e é acompanhada por uma ligação constante a Vronski, é acompanhada por uma “sombra”. Mas ela estava apaixonada, e ela sentia isso...
Ela própria sentia que ao vê-lo a alegria se reflectia nos seus olhos e lhe franzia os lábios num sorriso, e não conseguia sufocar a expressão dessa alegria. P. 137
Pois a sociedade em questão é uma sociedade onde os rumores e as críticas são sempre eficazes e rápidos. É um mundo do “mal dizer”. Afinal de contas... todo o mundo é e foi sempre assim, certo?

Achei bastante interessante a diferença de como reage a personagem feminina e a masculina. São reacções que demonstram precisamente a representação que existe e existiu em relação à mulher e ao homem. Anna tenta rejeitar e esconder, pois ela seria mal vista perante todos numa situação assim. Isto é, a mulher surge sempre moralmente condenada. Já Vronski surge aqui com um certo brilho e audácia:
Ele [Vronski] sabia muito bem que aos olhos de Betsi e de todas as pessoas da sociedade não corria o risco de ser ridículo. Sabia muito bem que aos olhos daquelas pessoas o papel do amante infeliz de uma rapariga e em geral de qualquer mulher livre podia ser ridículo; mas o papel de um homem que se afeiçoava a uma mulher casada e dedicava a sua vida a atraí-la a todo o custo para o adultério, esse papel tinha qualquer coisa de belo, de grandioso e nunca podia ser ridículo... P. 138
As situações de adultério parecem ser imensas e o facto dos casamentos seguirem muitas vezes o motivo da conveniência e não o da “paixão” é apenas uma ajuda para que mais tarde o casamento acabe por não resultar.

Em relação ao amor devo citar aqui umas palavras:
Para conhecer o amor é preciso cometer erros e depois corrigir-se P. 147
Ao nível de personagens devo referir que tenho uma aversão muito grande a Aleksi, marido de Anna. Ele rejeita o ciúme mas depara-se com a situação de Vronski e de Anna como sendo algo ilógico e incoerente. Ele fica inquieto e preocupado. No entanto, continua a desviar toda a importância para o seu trabalho e rejeita os sentimentos de Anna. A aversão que tenho em relação a esta personagem é devido a essa mesma rejeição e indiferença em relação ao que acontece no interior de Anna, sua mulher. É uma personagem fria que rejeita o seu papel emocional e dá mais importância ao seu papel enquanto “chefe da família”. Isto evidencia, sem dúvida, a questão do patriarcado que já referi anteriormente.
Ele disse mesmo: não tenho o direito de penetrar em todos os pormenores dos teus sentimentos, e em geral considero isso inútil e até prejudicial (...) Ao remexer nas nossas almas, muitas vezes desenterramos coisas que lá deviam permanecer imperceptíveis. P. 156

Eventualmente Anna e Vronski acabariam por ter uma relação e assim começaria a traição (para mim, essa traição já teria começado há muito). Quando isso acontece surge uma fantástica descrição do autor em relação a Vronski e Anna:
Sentia aquilo que deve sentir um assassino ao ver o corpo a que tirou a vida. Esse corpo a que ele tirara a vida era o amor de ambos, o primeiro período do seu amor. (...) A vergonha da sua nudez espiritual oprimia-a a ela e comunicava-se a ele. Mas, apesar de todo o horror do assassino diante do corpo assassinado, era preciso esquartejar esse corpo, escondê-lo, fazer uso daquilo que o assassino ganhara com o crime... P. 159

Lévin é uma das personagens que mais gosto. Isto faz-me lembrar a descrição que é feita da primavera. A chegada da primavera é uma das outras descrições maravilhosas. Bem como também a descrição da égua Frou-Frou.
Lévin afirmou algo que achei interessante pois remete-nos para a razão pela qual muitas vezes não alcançamos a felicidade:
Alegro [-me] com aquilo que tenho, e não me aflijo com o que não tenho. P. 171
Isto é dito a Oblonski, quando este se dirige ao campo para visitar Lévin e para tratar da venda de um bosque. Achei interessante a perspectiva de Lévin em relação à nobreza e à inocência destes no que toca a assuntos de terrenos e de outros assuntos relativos ao campo.
É ainda notória a revolta de Lévin para com o facto da nobreza estar a “falir” para os mais fracos devido a essa mesma inocência.

As reacções à relação de Vronski e Anna são diversas, mas parecem todas ir no mesmo sentido. Tal como pensava o irmão mais velho de Vronski: Não lhe importava que amor fosse aquele, grande ou pequeno, apaixonado ou desapaixonado, depravado ou não (...), mas sabia que esse amor desagradava àqueles a quem era preciso agradar e, portanto, não aprovava o comportamento do irmão. P. 184
Aqui se destaca novamente a questão das “aparências” e do julgamento da sociedade sobre esses assuntos “pessoais”, que se tornam então sociais.
Sentia como era angustiante a situação de ambos, como era difícil, expostos como viviam aos olhos de toda a sociedade, ocultar o seu amor, mentir e enganar... P. 193
E quando se sabe da gravidez de Anna esta questão da mentira e das aparências é novamente colocada e é então ponderada uma fuga dessa mesma sociedade.
Numa fase final da parte retomamos a Kiti e à sua nova vida “espiritual” no estrangeiro. Esta entretanto fica curada desse “desgosto” e volta de novo à Rússia.
Para terminar, deixo aqui uma citação que também achei interessante:
Há tempos em que se pode vender um mês inteiro por cinquenta cêntimos, e outros em que não se cede meia hora por dinheiro nenhum. P. 242

A terceira parte é essencialmente a oposição campo/cidade e também surge muito evidenciada a oposição nobreza/classe trabalhadora.

Logo de início somos confrontados com Lévin no seu mundo. Lévin encontra-se no campo e nesse mundo ele junta-se aos trabalhadores e trabalha com prazer. É interessante como o seu irmão e os próprios mujiques encaram isto com estranheza e de como a representação “não é trabalho para senhores” (Pág. 269) predomina. Isto para mim demonstra muito bem o quão estão delimitadas essas categorias, diferenciações e oposições. Ainda aqui é feita uma descrição da ceifa e nesta Lévin anda sempre entre gerações diferentes de trabalhadores. É o novo e o velho... São as tais oposições... E demonstram o quê? Apesar das oposições e das diferenças... tudo é igual. Neste caso, apesar de novo, apesar de velho ou até nobre... todos pertencem à vida e à morte e todos partilham o trabalho.
Gostei muito da aproximação que tivemos de Dollie nesta parte. Ela vem para o campo com as crianças e é neste cenário que a sua personagem cresce e eu gostei de acompanhar esse crescimento.
Quando Lévin se encontra com Dollie eles conversam sobre Kiti. Será Lévin capaz de esquecer o orgulho e a mágoa da recusa?
Achei muito interessante quando Lévin pensa “E porque é que ela [Dollie] fala em francês com os filhos? (...) Que coisa tão pouco natural e falsa! E as crianças também sentem isso. Fazem-nas aprender francês e esquecer a sinceridade” (pág. 283).
Eu achei isto interessante porque isto faz-me pensar nas raízes. Faz-me pensar no modo como os Russos foram adquirindo certos hábitos que não eram seus (costumes, língua...) e de como isto faz com que a identidade do próprio povo se reprima por vezes. Hoje em dia há toda uma diversidade que está presente em todo o mundo mas não pensamos nisso normalmente porque é algo que está demasiado enraizado e cada vez menos temos uma identidade própria mas sim uma só identidade global.
Lévin está num caminho à procura de respostas. Ele vive e procura a sua vida. Ele procura o seu destino, a felicidade. Ele reconsidera hipóteses, reconsidera a vida familiar e pondera o trabalho colectivo e a pureza, alegria e simplicidade que sente com o trabalho. Mas, “por acaso” surge Kiti novamente e Lévin soube que “só havia no mundo uns olhos como aqueles. Existia apenas um ser capaz de concentrar para ele toda a luz e todo o sentido da vida. Era ela. Era Kiti” (pág. 288).
Aleksei, marido de Anna, surge novamente e já sabendo da traição da mulher. “Sentia-se como um homem a quem tivessem arrancado um dente que lhe doía há muito” (pág. 289).
Ele já sabia e apenas esperava a confirmação. A personagem é fria e racional e certamente a incerteza é uma das suas piores inimigas. Mas agora que a certeza tomou lugar... alívio. E então o que fazer? Trata-se de uma personagem, como já referi, fria e racional, portanto “a única coisa que agora o preocupava era a melhor maneira, a mais decente, a mais cómoda para ele e portanto a mais justa, de se livrar da lama com que ela o salpicara na sua queda, e continuar a sua vida activa, honesta e útil” (pág. 290).
Eu acrescentaria também falsa, fria e solitária. E quais as “saídas”? Ele pensou em várias... desde o duelo, o divórcio ou separação, até ao castigo da mulher e o ocultar de tudo de modo a manter a mulher e tudo como era...
Obviamente teria de ser esta a escolha para “conforto” dele e da sua imagem na sociedade.
Sim, as aparências são muito importantes nesta sociedade.
Mas isto não é importante para todos certamente... apenas importa para aqueles que fazem a sociedade de facto, certo?
Quando Lévin se encontra com o latifundiário no campo ele pensa isso mesmo: era evidente que o latifundiário dizia o seu próprio pensamento, o que é raro acontecer, e um pensamento a que fora levado não pelo desejo de ocupar com alguma coisa um cérebro ocioso, mas nascido das condições da sua vida, que ele amadurecera na sua solidão do campo e analisara de todos os lados (pág. 340).
Lévin vive para a agricultura e os seus planos agrícolas quase que surgem como uma metáfora da revolução.
Mais para o fim da terceira parte o sentido da vida para Lévin começa a ser coberto por um outro sentido... o sentido da morte. É aqui que chega o seu outro irmão ao campo, Nikolai, e é aqui que Lévin se depara com a inevitilidade da morte.

Na quarta parte temos novamente as dicotomias a falar mais alto: a união e a separação, o fim e o início.
Temos a vida e a morte.

Esta parte foi um pouco diferente das anteriores na medida em que os papéis se inverteram. Houve uma inversão de papéis: de Anna, Vronski, Aleksi... Houve também uma reviravolta no que toca à história de Lévin e Kiti.

Um dos aspectos que mais me chamou a atenção nesta parte foi a mudança da situação de Lévin e Kiti. É a felicidade.

Foi também muito interessante conhecer o outro lado de algumas personagens, tais como Anna, Vronski e Aleksi. Estes formam um triângulo que não é de todo simples. É complexo e as personagens parecem ter muito mais a mostrar...

Tolstoi nesta parte pegou num pincel e em várias cores. Pintou com diversas cores e em diversas telas.

As personagens ganham aqui mais vida e mais cor. A mais surpreendente é Aleksi Karenin, pelo menos por mim.


Na quinta parte...
A quinta parte começa com o casamento de Lévin. Aqui o que para mim se destacou foi a visão dada da altura que antecedeu o casamento, o retrato da cerimónia do casamento e a ponte que foi feita entre as expectativas que a antecediam e a realidade após.
Temos aqui um pouco daquela representação que ainda hoje é alvo de piada por parte dos homens. Falo da perspectiva de liberdade e felicidade, da perspectiva de que o casamento dita um corte de asas ao homem. Por outro lado, vemos a mulher atarefada a “construir o seu ninho”, ansiosa por isso e atenta a todos os pormenores e expressões.
Mas Lévin estava apaixonado e apesar dos comentários dos seus amigos:
“Liberdade? Porquê a liberdade? A felicidade está apenas em amar e desejar,pensar nos seus desejos, nos seus pensamentos, ou seja, nenhuma liberdade – é isso a felicidade!” p. 454
Mas a visão “pós-casamento” já era um pouco diferente... Certamente a felicidade não lhe parecia “tão feliz”:
“Depressa sentiu que a realização do seu desejo lhe trouxera apenas um grão de areia da montanha de felicidade que esperava”. P. 474
Lévin tinha-se casado (...) Era feliz, mas de um modo muito diferente do que esperava. A cada passo encontrava uma desilusão aos seus anteriores sonhos e um novo encanto inesperado. Era feliz mas, ao entrar na vida familiar, descobria a cada passo que ela era completamente diferente do que tinha imaginado. A cada passo sentia-se como um homem que, depois de admirar o movimento harmonioso e feliz de um pequeno barco num lago, tivesse entrado ele próprio nesse barco. Via que não bastava ficar sentado imóvel, sem se baloiçar – que era também necessário pensar, não se esquecer nem por um minuto de para onde ia, de que tinha água por baixo dos pés, de que tinha de remar e que isso fazia doer as mãos por falta de hábito, que limitar-se a olhar para aquilo era fácil, mas fazê-lo, embora muito agradável, era muito difícil. P. 488
E da vida na cidade/campo e da união pelo “sagrado” partimos para os russos Vronski e Anna que se encontravam no estrangeiro. Aqui tenho de realçar a desadaptação dos russos, a tentativa de se camuflarem, de se “ocidentalizarem” e no entanto permanecerem com a sua identidade tão própria e tão “na margem”. E aqui não se trata de uma oposição entre cidade/campo, mas sim de uma oposição interior/exterior, nacional /estrangeiro e, acima de tudo, uma união “profana” e não sagrada.
E da união partimos para a vida. E da vida para a morte.
Nikolai, irmão de Lévin, surge novamente e a morte acompanha-o.
Uma das belezas desta parte é a descrição da morte em Nikolai e naqueles que a/o rodeiam.
Dantes cada desejo causado por um sofrimento ou por uma privação, como a fome, o cansaço, a sede, eram satisfeitos por uma função do corpo que proporcionava alívio; mas agora a privação e o sofrimento não obtinham satisfação e as tentativas de satisfazê-los causavam um novo sofrimento. E por isso todos os desejos se fundiam num só – o desejo de se livrar de todos os sofrimentos e da origem deles, o corpo. P. 511
E como partimos da vida para a morte, também a morte significa vida e esta surge com a gravidez de Kiti. O vulto da morte passou numa página, mas logo na seguinte surgiu um outro rebento de vida. É o ciclo, certo?
Comecei este comentário relativo à quinta parte por falar da felicidade de Lévin. Agora vou referir-me a uma outra personagem e a outro sentimento. Karénin. Só e triste.
Esta personagem é às vezes ridícula mas por vezes também exige compaixão e até pena. É neste sentido que surge Lídia, uma beata (creio que é a melhor palavra em termos de descrição da personagem). Karénin está num duelo psicológico e sente remorsos pelo passado. Sente que não procedeu da melhor forma pois agora vê e sente as consequências dos seus actos. É aqui que surge Anna novamente no seu país e na sua cidade. Ela regressa e deseja ver o seu filho Serioja.
Além de ter mencionado a descrição da morte como uma das belezas desta parte, vou também mencionar o outro aspecto que mais gostei desta quinta parte:
Serioja. Esta criança é adorável e adorei ler os capítulos que o abordam. A ligação da inocência e sabedoria neste ser tão pequeno (mas tão grande) é adorável. Ele tem uma alma pura e repleta de amor. Achei particular interesse ao facto de ele não acreditar que a mãe (Anna) está morta. Aliás, ele não acredita na morte porque ele ama; e amando ele continua a ser acompanhado por quem ama.
Tinha nove anos, era uma criança; mas conhecia a sua própria alma, ela era-lhe cara e ele protegia-a como a pálpebra protege o olho, e não deixava que ninguém entrasse na sua alma sem a chave do amor. P. 534

Outro ponto que achei interesse nesta parte da obra foi a perspectiva de Vronski em relação à sociedade. Isto é, que apesar da sua situação actual com Anna, essa situação iria sendo aceite com o tempo devido ao progresso e tanto ele como Anna teriam as “portas da sociedade” novamente abertas.
É possível ficar sentado durante várias horas com as pernas encolhidas na mesma posição se soubermos que nada nos impede de mudar de posição; mas se um homem sabe que tem de ficar assim com as pernas encolhidas, começa a sentir cãibras, as pernas ficarão com tiques e começarão a procurar o lugar para onde ele quer estendê-las. Era isso o que Vronski sentia em relação à sociedade. P. 536
Todavia, com o desenrolar da história é visível e previsível que a abertura dessas portas terá apenas um ingresso e esse ingresso será para Vronski e não para Anna.
“Como um jogo do gato e do rato, as mãos que se erguiam para ele baixavam imediatamente diante de Anna.” P. 536


A 6ª parte começa com uma casa situada no campo repleta de gente. Lévin e Kitty têm a sua casa cheia de familiares e o sossego tão típico desta casa tirou umas férias.

Por outro lado, surge uma outra casa, também situada no campo, onde reina o isolamento, a separação. Vronski e Anna estão quase sozinhos e quase que têm que inventar o que fazer para que o tempo passe.

E nestas "invenções" percebe-se muito bem como Vronski e Anna estão num mundo aparte. Estão num mundo mais evoluído, certamente. Lévin, por outro lado, personifica o conservador e tradicional.

Há aqui ainda uma distinção entre o que vive no campo trabalhando e outro usufruindo e gastando.
Acho que isto resume muito bem outro ponto... Isto é, Lévin vive para a terra e sente o valor da terra ao ponto de sentir a obrigação de se dedicar a ela. Vronski já não surge como o amante da terra. Vronski vem para uma zona rural para procurar isolamento e distância da cidade que condena Anna. Mas Vronski retira valor dessa terra. Vronski não vive para ela mas retira o valor dessa terra e assim desfruta dela. De Lévin vemos a simplicidade, a neutralidade... Pelo lado oposto surge Vronski e o luxo.
Quando Dolly decide visitar Anna surge aqui a ponte que nos leva a esses mundos tão diferentes.

Achei muito interessante a conversa de Vronski com Dolly. Esta perspectiva da filiação interessou-me sobremaneira. Isto é, Vronski surge como um pai que é pai mas não é pai. É pai biológico, é pai afectivo; no entanto, não é pai legal da criança que é sua. Isto é interessante porque nos faz pensar na importância do parentesco. Faz pensar e reflectir no modo como por vezes os filhos podem ser tidos em conta não só enquanto sujeitos, mas também como "propriedade". Isto é, a preocupação principal de Vronski com essa questão é o facto da sua filha poder suceder-lhe por direito, poder ficar com os seus bens, poder ficar com o seu nome, poder continuar a dar vida no mundo após a sua morte devido a uma identidade existente. Estas questões jurídicas/sociais/biológicas interessam-me e achei que esta situação daria para reflectir muito mais...

Outra coisa que daria para reflectir muito mais, para mim, é Anna.

Eu não tenho qualquer antipatia com Anna.
É uma personagem muito interessante. É complexa, contraditória e esta parte ajuda a perceber melhor os conflitos que se passam com a personagem.
Ela não é propriamente má nem egoísta, na minha opinião. Esta personagem personifica a mulher propriamente dita. A mulher nua, a mulher que até fica mal na fotografia e que está à visualização de todos.
Anna, para mim, é aquela personagem que, apesar de não reunir a simpatia de quase ninguém, transmite uma naturalidade fantástica.
Ela é, por assim dizer, o retrato natural do que é ser mulher e viver em sociedade. E é uma mulher intemporal. É por isso que considero esta obra um clássico.
Anna é simplesmente uma mulher.

Ela desde início era imensamente apreciada. Todos gostavam de Anna. Ela era perfeita, tinha a vida social perfeita, família perfeita, ... Não era feliz. Mas era perfeita.
A perfeição desta mulher assumiu uma forma tentadora, de modo que Vronski se deixou apaixonar. Anna é tida como uma bruxa e começa aqui a assumir esse papel maléfico. Anna lança o seu feitiço.
Mas foi algo natural, certo? Ela não o fez propositadamente. Vronski correu atrás dela e apesar de ele ter sido também por sua vez tentador, ela tentou resistir. Vronski nem isso tentou, e no entanto ela é que permanece como a figura de tentação.
(A mulher simbolicamente, quer se queira quer não, sempre foi e sempre será associada a esta figura de tentação...)

Anna acabou por não conseguir resistir ao charmoso Vronski. O seu marido não se importava minimamente com os seus sentimentos, ela era quase desprezada enquanto ser emocional. Ela era apenas um ser racional e certamente necessitava de algo mais do que razão. Vronski foi um óptimo escape. Não é uma desculpa, é apenas a realidade transmitida pelo autor.
Mas tudo se desenrolou e surgiu a traição. Anna acabou por ser marginalizada (de certa forma podemos colocar as coisas desta forma), discriminada e completamente posta de lado.
Os únicos seres que alguma vez se ligaram a Anna enquanto ser emocional (e não racional) foi o seu filho e Vronski. Anna perdeu a ligação com a razão e só lhe restam estes dois seres.
Compreendo perfeitamente o fraco sentimento para com a filha que teve de Vronski. Sim, é grosseiro, rude, egoísta. É, um pouco. Mas se pensarmos na situação e na condição da personagem... é compreensível. Trata-se de sentimento, e quanto a isso ela é clara.
O sentimento de amor, no entanto, começa a ficar deturpado devido à quebra do vínculo com a razão. Anna começa a demonstrar que o que sente por Vronski não é propriamente amor, mas sim obsessão e necessidade.
Antes de tudo, necessidade.

Ela necessita dele. Ela já não tem o seu filho, nem poderá ter. Só lhe resta Vronski.
Anna surge como a culpada. Anna surge como a figura negativa. Mas Anna também nos faz pensar... Pelo menos a mim faz.
Anna pode ser vista como aquela que está a destruir a vida a dois homens: Karenin e Vronski.
Mas eu questiono: não foram esses dois homens que destruíram a vida de Anna? Um roubou-lhe a razão e o outro está a roubar-lhe o sentimento.
Anna está lentamente a perder a sua alma. Alma essa que foi retirada pela sociedade.

Já perto do fim...
Na 7ª parte destaca-se Lévin e o modo como este está deslocado na cidade. Aqui parece-me que Tolstoi recorre imenso à ironia e há certas partes que têm um certo humor.
Quando Kiti dá à luz o desespero de Lévin tornou-se comediante.
Vida e morte. Anna está a desmoronar e o leitor sente isso ao ler estas últimas páginas... Ela está doente. Anna está fora de si, mas ao mesmo tempo extremamente ela própria: em contradição.

A 8ª parte é muito interessante. O modo como foi perspectivada a morte de Anna e o seu final trágico é aqui muito interessante. Esta é a parte que junta os nós. Era necessária esta parte para terminar a moral. Esta parte é essencial porque permite o desenlace e o perceber na totalidade o desfecho do que o autor pretendeu transmitir.
Adorei os diálogos, os monólogos e os pensamentos de Lévin nesta parte. É fabulosa a reflexão em torno da vida que Lévin faz. O viver, sabendo que se vive sem pensar nesse viver. Trata-se um pouco do racionalismo/irracionalismo. Há um excerto desta parte fantástico... excerto que acabei por não passar para aqui pois seriam precisas umas duas páginas... Mas aconselho a prestarem muita atenção a essas palavras quando/se lerem o livro. Refiro-me a uma parte onde Lévin se debate com questões filosóficas e existencialistas e se compara com as crianças. Acho que essas páginas estão geniais.


Algo que marca este livro é o facto de ser intemporal. Acho que já referi isto mas é algo que é muito importante para mim.

Este autor, apesar de pertencer a outro século, brinda-nos com reflexões e com situações passadas que continuam a ser actuais. Isso, para mim, é fabuloso.

Um dos pontos mais interessante da obra é o jogo que o autor faz com o racional, irracional e com a emoção. Não se trata de uma obra que narra o trajecto de indivíduos isolados e suas relações/sentimentos. É uma obra que vai além, é uma obra que faz uma contextualização fantástica da sociedade onde esses indivíduos se situam e é uma obra com mensagens muito fortes mas ao mesmo tempo muito subtis.

É uma obra fantástica sobre vida, morte, amor, atracção, casamento e sociedade.

É uma obra que transmite uma mensagem muito subtil mas muito clara (pelo menos para mim o assim é): o amor acaba por vencer, o amor na sua verdadeira essência fala sempre mais alto e faz com que haja felicidade de facto, apesar do trabalho ou sacrifício.
Quando se trata de amor dissimulado, quando se trata de puro desejo ou atracção... a desgraça acabará por surgir e a infelicidade tomará lugar.

A principal moral deste livro, para mim, está intimamente relacionada com o trajecto de Lévin e Kiti e paralelamente Vronski e Anna.
Por um lado um amor de facto, um amor baseado em sentimentos “verdadeiros”, espirituais, mas também com sacrifício e trabalho... e de outro lado um amor carnal, baseado na atracção, desejo e prazer.

E depois temos tudo isto enquadrado com a realidade, a sociedade e todas as convenções e dependências que temos por sermos um ser social. É uma obra que lida com o modo como somos influenciados enquanto seres. Tomamos a nossa própria vida nas nossas mãos e nós é que tomamos as rédeas ou somos sujeitos a outros constrangimentos? É a sociedade que toma as rédeas da nossa vida?
É uma obra que aborda a vida e a morte por dentro dos conceitos. E estes conceitos ganham vida e fazem-nos deslumbrar a nossa condição. A desgraça e a felicidade.

3 de janeiro de 2010

2009 humm...

O ano de 2009? Foi bom.

Em termos de música... grandes festivais, grandes concertos! Tenho de destacar o concerto de Moonspell, Ramp e Soulfly no S. Mamede em Guimarães, o Violent Mardi Gras em Guimarães, o Priest Feast no Pavilhão Atlântico, o Optimus Alive em Oeiras, o Berço Fest em Guimarães, o Vagos Open Air, o Progressive Nation no Pavilhão Rosa Mota, o Vimaranes Metallvm Fest com Nile e uma série de warm ups e outros concertos, como por exemplo o concerto de encerramento da tour de Men Eater no Insólito em Braga ou os dois concertos do Angelo Kelly (em Londres e Lisboa)...

Em termos de cinema... muito bons filmes, como por exemplo: o 7 pounds, o Doubt, o Slumdog Milionaire, Changeling, Gran Torino, The soloist, A christmas carol e o Avatar em 3D.

De teatro creio que só fui a uma peça (Tambores na noite de Bertold Brecht) e fui a um pequeno musical dos Beatles organizado pelo conservatório de música Calouste Gulbenkian de Braga. Adorei ambos ^^
Ainda vi um outro evento teatral/musical que adorei! Falo de um evento realizado em Guimarães para comemorar os 900 anos de Afonso Henriques “o sonho de Afonso”. Lindo!

Foi um bom ano em Guimarães. Tivemos bonitas comemorações de facto. O torneio medieval foi outra delas.

Foi o ano em que mais vezes fui ao futebol. Na minha vida toda fui a 4 jogos de futebol, sendo que 2 delas foram este ano xD Fui ao jogo da selecção portuguesa com Malta para qualificação ao mundial e ao jogo do Vitória de Guimarães – Porto em Guimarães.

Em termos académicos... acabei a licenciatura em alta com um 19 na tese x)
Usufrui de uma bolsa de investigação num projecto fantástico. Em termos académicos e já profissionais obtive uma outra bolsa de investigação num projecto igualmente fantástico no qual estou a trabalhar.

Em termos de livros... Li muito bons livros. Nomeadamente o “Senhor dos Anéis” de Tolkien (finalmente preenchi essa lacuna), o “Norwegian Wood” de Haruki Murakami e o “Book Thief” de Markus Zusak .
Também dei uma nova hipótese ao Saramago e li o “Ensaio sobre a cegueira” e adorei. Continuei a descobrir Dostoievski, Dickens... Foi um ano produtivo.

Em termos de viagens pelo estrangeiro foi fraco. Fiz apenas uma viagem a Londres, se não estou em erro. Foi uma boa viagem e visitei alguns sítios que nunca tinha visitado em Londres, nomeadamente a Westminster Abbey.
Infelizmente fui obrigada a ir ao London Eye (algo que queria evitar até ao resto da vida) e sem dúvida que foi uma das experiências "inesquecíveis" do ano. Fui também a uma exposição de Darwin no Museu de História Natural que adorei.

De qualquer forma foi um ano que apostei em viagens por Portugal. Visitei sítios no Porto que nunca tinha visitado: Palácio da Bolsa, Igreja monumento de S. Francisco, museu e cemitério catacumbal.

Fui à zona centro de Portugal conhecer cidades como Batalha (fantástico mosteiro, grutas...), Tomar (convento lindo), Óbidos (apaixonei-me por esta cidade), Alcobaça... E fiz uma viagem a Lisboa onde fiquei finalmente a conhecer alguns sítios que nunca tinha visitado no seu interior (como por exemplo a Torre de Belém, o Mosteiro de Jerónimos...).
Até ao final de 2009 queria ter visitado as 7 maravilhas de Portugal que ainda não tinha visitado e tal foi concretizado ^^ Já visitei todas as “maravilhas” apontadas :)

O ano acabou em alta com a compra da minha primeira máquina fotográfica reflex ^^ uma Canon 450D.

E o objectivo de começar a aprender uma outra língua concretizou-se também com a frequência de um curso de Japonês x) Curso que irei continuar agora em 2010.

Agora que penso... 2009 foi muito bom e não apenas bom.

Em termos pessoais... altos e baixos, como tudo na vida.

Desejo para 2010: Saúde e paz para todos * (cliché, eu sei, mas no fim é o que importa).

(ahhhh e comer melhor e de forma mais saudável! E depois tirar uma folga do plano saudável e ir a Itália! xD)

18 de dezembro de 2009

Avatar



Ontem fui ver o AVATAR em 3D ao cinema. Fiquei maravilhada.

Foi, sem dúvida, um dos melhores filmes que vi em toda a minha vida.


Espero voltar ao cinema ainda esta semana para rever. Que obra-prima!

De momento não tenho muitas palavras para descrever o filme, mas queria deixar este comentário aqui a referir o quão adorei o filme. Aconselho vivamente, aconselho a não perderem mesmo a oportunidade de ver o filme numa sala de cinema em 3D. Este filme vai fazer história. Aliás, para mim já fez.

3 de dezembro de 2009

A cegueira



Pela primeira vez li uma obra completa de José Saramago. A verdade é que já tinha tentado ler e simplesmente acabava por abandonar a leitura. O modo de escrita não muito “convencional” do autor deixava-me pouco à vontade e simplesmente não conseguia desfrutar da obra e acabava por deixar o livro ao abandono... No entanto, tentei por fim dar uma outra hipótese ao nosso Nobel de literatura e acabei agora de ler o Ensaio sobre a cegueira.

Tinha visto a adaptação desta obra no cinema (realizada por Fernando Meirelles) e na altura foi um filme que me marcou. Um excelente filme, com uma fotografia fantástica... um filme que nos desperta e que desperta em particular todos os nossos sentidos.

Agora depois de ler o livro devo confessar que este excedeu as expectativas. Sim, continuo a não gostar do modo como o autor escreve. Sim, continuo a achar que por vezes é tão ou mais fácil ler algo de um teórico como o Georg Simmel do que alguns parágrafos de José Saramago. No entanto, apesar de tudo isso... é um livro fantástico.

E se... enquanto eu redijo este pequeno comentário os meus olhos deixassem de ver? E se... enquanto tu lês estas palavras os teus olhos deixassem de funcionar?

O cego ergueu as mãos diante dos olhos, moveu-as, Nada, é como se estivesse no meio de um nevoeiro, é como se estivesse caído num mar de leite. P.13
(...)
Chegara mesmo ao ponto de pensar que a escuridão em que os cegos viviam não era, afinal, senão a simples ausência da luz, que o que chamamos cegueira era algo que se limitava a cobrir a aparência dos seres e das coisas, deixando-os intactos por trás do seu véu negro. Agora, pelo contrário, ei-lo que se encontrava mergulhado numa brancura tão luminosa, tão total, que devorava, mais do que absorvia, não só as cores, mas as próprias coisas e seres, tornando-os, por essa maneira, duplamente invisíveis. P. 15, 16


É um livro que trata essencialmente do nosso funcionamento enquanto seres humanos e seres sociais. Para mim é essencialmente isso.
Somos uma espécie que funciona de determinada forma, com determinados limites e certas regras e normas. Tudo isto pode surgir de nós mesmos, da interacção que temos com a sociedade ou então da forma como fomos evoluindo enquanto espécie.
O José Saramago nesta obra pinta muito bem, no entanto, o nosso instinto mais “rudimentar”, o nosso lado mais animal, cruzando-o com as reflexões dos supostos limites e normas. Cruzando o animal, o selvagem e o grosseiro com o que nos é imoral e errado. Mas o que importa? Se não temos olhos não temos olhar e se não temos olhar... quem é que há-de vigiar a barreira que serve de limite?

Somos confrontados com situações de egoísmo, de procura de “sobrevivência”, de instinto puramente animal.

É desta massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade. P. 40

... ainda está por nascer o primeiro ser humano desprovido daquela segunda pele a que chamamos egoísmo, bem mais dura que a outra, que por qualquer coisa sangra. P. 169


Mas sem esquecer a lembrança do que fomos e do que somos e a memória que fica dessa nossa identidade.

Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos. P. 262


É um livro que encoraja, sem dúvida, a uma boa reflexão sobre diversos aspectos que nos dizem respeito a nós enquanto seres humanos, seres sociais e acima de tudo, seres que “vendo, não vêem”.

Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem. P. 310



... Se antes de cada acto nosso nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. P. 84

Sim, o que é a razão afinal?

20 de novembro de 2009

Lá vai Lisboa…

Há cerca de 2 semanas fui até Lisboa. Foram 2 dias preenchidos e agradáveis pela capital lisboeta.

No primeiro dia fomos até ao Jardim Zoológico de Lisboa. Foram cerca de 6 ou 7 horas que lá estivemos mas a verdade é que podia ficar ainda outras tantas e seria ainda mais fantástico!
Já lá tinha estado mas era muito nova e não me lembrava de quase nada. De qualquer forma, recentemente fizeram obras e o jardim zoológico sofreu uma série de alterações. Está realmente digno de se visitar!
Além da imensa diversidade de espécies de animais que lá têm, o espaço está muito agradável, onde não passa despercebida a atenção que tiveram não só com a fauna mas também com a flora.



O “lar” dos animais é deveras interessante, sendo que achei muito bonito quase não haver grades e cimento. Visitem e irão ficar surpreendidos!
Outra coisa que me despertou atenção é o facto de haver não só uma preocupação com a conservação mas também com a reprodução. Imensas espécies que lá estão no jardim zoológico têm crias, o que é admirável.







Se são de Lisboa aproveitem bem esse jardim zoológico! Há um programa denominado apadrinhamento de animais e sem dúvida que é algo excelente. E se estás a ler isto: procura informar-te sobre isso e apadrinha um animal! Eu gostaria de o fazer, mas sem dúvida que o facto de não ser de Lisboa não ajuda a isso.













Depois de ir ao pé da Brasileira no Chiado cumprimentar o Senhor Fernando Pessoa e dar uma volta por lá dirigimo-nos à Santa Apolónia para jantar. Depois foi o momento pelo qual muitos aguardavam e fomos em direcção de Xabregas, até ao Teatro Ibérico, para ver o concerto do Angelo Kelly. Foi um concerto muito bom e que irá deixar saudades!



Para passar a noite ficamos todos juntos num bungalow que um amigo tinha reservado. Trata-se de pequenas casas de campo turísticas, umas bonitas casinhas de madeira em pleno parque do Monsanto. Achei a ideia muito interessante e sem dúvida que deve ser um belo local de escape para quem mora numa cidade que nem Lisboa.
No dia seguinte foi altura de satisfazer o meu desejo de visitar as restantes “maravilhas” de Portugal que ainda não tinha visto: Mosteiro de Jerónimos, Torre de Belém e claro :P os pastéis de Belém!


Quase ao pé do palácio de Belém (é tão cor-de-rosa!) lá se erguia o majestoso mosteiro! Fiquei encantada por ver de perto os túmulos de Vasco da Gama, Luís de Camões e Fernando Pessoa. Fiquei ainda mais encantada, maravilhada e completamente arrebatada com os claustros. É sem dúvida um local a visitar! Desta visita ressaltou também o facto de ter visto o túmulo de D. Sebastião na igreja do mosteiro e depois ter visto numa cronologia que lá estava em exposição uma data de quando foi sepultado D. Sebastião. Foi quase como que receber a notícia de que o pai Natal não existe. Como é possível? Crescer sempre com a ideia de que é o rei desaparecido que ainda há-de voltar um dia no meio de nevoeiro e depois ver o túmulo à nossa frente é algo um tão pouco esquisito. Já andei a pesquisar e há tanta ambiguidade à volta do tema e há tanta controvérsia que eu decidi permanecer com a ideia de que o D. Sebastião continua a vaguear pelo norte de África.













A caminho da torre de Belém ainda deu para admirar o belo Padrão dos Descobrimentos.
A torre de Belém… A torre de Belém é tão pequenina mas tão fofa! Acho que é a melhor palavra para descrever a Torre de Belém: fofa.
Uma coisa aconselho a quem a visitar: levem um helicóptero ou então só subam aquilo tudo se não estiver muita gente por lá! Aquelas escadinhas íngremes são terríveis para conseguir subir e descer caso esteja por lá muita gente. Nunca pensei demorar cerca de meia hora para conseguir descer 3 andares!
Depois de visitar a torre de Belém nada melhor do que ir à fábrica original dos pastéis de Belém. É lá que permanece em segredo a receita original deste doce tão típico da doçaria portuguesa. É certo que em qualquer lado podemos comer um pastel de Belém, mas é nesta fábrica em Belém, e mais concretamente na Oficina do Segredo, que se preserva e confecciona o sabor de um doce e da sua secular subsistência. Para quem é do norte, aproveitem! É diferente do “pastel de nata” que estamos habituados, é servido quentinho e é mesmo bom!
E foi de um cenário de clérigos e tradição que avançamos para o mundo americanizado de fast-food e rock n’roll. Fomos pois almoçar ao Hard Rock Lisboa e que belo almoço foi. A repetir! Até porque quando lá fomos ainda não estavam em exposição os materiais que Moonspell cederam. xD



Para finalizar a viagem concretizei também o desejo de visitar o Oceanário no parque das nações. Belo, belo e belo! O aquário central é sem dúvida soberbo e tem espécies lindíssimas. Além das diversas espécies, tem também uma distribuição e exposição em relação aos 5 oceanos que está muito bem conseguida. É o segundo maior oceanário do mundo e é, de facto, muito interessante e está repleto de belas criaturas.

E apaixonei-me pelas lontras! xD



E não, isto não são lontras mas sim pinguins.

1 de novembro de 2009

A Christmas Carol

Estive a ler o "conto de Natal" de Charles Dickens e apetece-me ler novamente e outra vez e sempre! Toda a gente conhece o conto, é certo, mas é um conto tão bonito, tão simples e com tanto espírito que uma pessoa quase que renasce e sente realmente esse espírito "natalício". São poucas páginas e as palavras não são muitas... mas dizem muito. É um conto a ser lido sempre e a ser reflectido por todos nós.

Para quem ainda não leu, aconselho vivamente. E se o meu conselho não for suficiente... sirvam-se dos dias de inverno que se avizinham e da época festiva para ler um conto com o mesmo cenário. Acolhedor, caloroso e real.

27 de outubro de 2009

Norwegian wood





I once had a girl, or should I say, she once had me...
She showed me her room, isn't it good Norwegian wood?

She asked me to stay and she told me to sit anywhere,
So I looked around and I noticed there wasn't a chair.

I sat on a rug, biding my time, drinking her wine,
We talked until two and then she said: "It's time for bed"

She told me she worked in the morning and started to laugh.
I told her I didn't, and crawled off to sleep in the bath

And when I awoke, I was alone, this bird had flown
So I lit a fire, isn't it good Norwegian wood.



The Beatles - Norwegian wood


O Norwegian wood de Haruki Murakami não tem apenas o nome desta música de Beatles. Este livro vem acompanhado de banda sonora e a Norwegian wood certamente nos remete para as páginas deste fabuloso livro.
Há um rapaz e há uma rapariga.
I once had a girl, or should I say, she once had me...
Além dessa rapariga há outras. Há sensualidade, amores e descobertas. A metamorfose de uma fase para outra, a transformação de um adolescente em adulto. É o ciclo da vida e a memória…
A minha memória tem-se tornado cada vez mais ténue e já esqueci muitas coisas. Quando escrevo assim de memória, sinto frequentemente uma pontada de pavor. E se esqueci já a coisa mais importante? E, se algures dentro de mim, há um escuro limbo onde todas as memórias verdadeiramente importantes estão amontoadas e começam lentamente a transformar-se em lama? p. 17

A memória do passado, a tristeza e a perda… mas a vida e o seu ciclo perdura. É pois um livro de descobertas, de descobrir o caminho, o equilíbrio e a simplicidade.
Nunca consigo expressar o que pretendo dizer – continuou a Naoko. – Há já bastante tempo que tem sido assim. Tento dizer algo, mas só me saem as palavras erradas: as palavras erradas ou as palavras exactamente opostas àquilo que pretendia dizer. E, se tento corrigir-me, pioro ainda mais coisas. Além do mais, esqueço-me de imediato do que estava a tentar dizer. É como uma metade a perseguir a outra metade à volta de um poste enorme e largo. O outro eu tem as palavras exactas, mas este eu não consegue apanhá-la. – Levantou a cabeça e olhou-me nos olhos. – Isto faz algum sentido para ti? p. 31, 32

É a procura da essência. É uma viagem interior. É o constatar que por mais difícil que seja temos de nos apoderar desse ciclo e simplesmente caminhar e encontrar o nosso caminho.

Quando recordo o ano de 1969, tudo o que me ocorre é a imagem de um pântano: um pântano profundo e viscoso que parece prestes a atolar-me os sapatos sempre que dou um passo. E caminho através da lama, exausto. À frente e atrás de mim, não vejo nada a não ser a infindável escuridão de um pântano. O próprio tempo arrastava-se ao ritmo dos meus passos hesitantes. As pessoas à minha volta há muito que prosseguiram em frente, mas eu e o meu tempo ficáramos para trás a debatermo-nos com a lama. O mundo ao meu redor estava prestes a sofrer grandes transformações. (…) Todavia, essas «mudanças» não passavam de encenações bidimensionais, panos de fundo desprovidos de substância ou significado. Arrastava-me ao longo de cada dia e raramente levantava a cabeça, sempre de olhos presos no infindável pântano que se estendia à minha frente: apoiava o pé direito e erguia o pé esquerdo, apoiava o pé esquerdo e erguia o pé direito, nunca sabia onde estava, nunca sabia se me dirigia na direcção certa, sabia apenas que tinha de continuar a avançar, um passo de cada vez. P. 285

É um livro com muita música mas também acompanhado de silêncio.
Tem uma certa tristeza e balanceia entre o conhecido e o desconhecido. É toda uma viagem e há imensas descobertas. As palavras de Murakami em Norwegian wood são delicadas mas também são fortes, tanto abordam a vida como abordam a morte.
A morte existe, não como o oposto da vida mas como parte dela. É um cliché transposto em palavras, embora nessa altura não o sentisse como palavras mas como um nó de ar dentro de mim. A morte existe – num pisa papéis, em quatro bolas vermelhas e brancas numa mesa de bilhar – e continuamos a viver e a respirá-la para dentro dos pulmões como uma poeira fina. p. 36


Pensei muito em ti durante todo este tempo. Quanto mais pensava, mais sentia que estava a ser injusta contigo. Talvez devesse ter-me mostrado uma pessoa melhor e mais justa no modo como te tratei. Mas esta não será a maneira mais normal de encarar as coisas. As raparigas da minha idade nunca usam a palavra “justo”. As raparigas normais da minha idade são basicamente indiferentes ao facto de as coisas serem justas ou não. A questão central para elas não reside no facto de algo ser justo, mas se é ou não belo ou se as fará felizes. «Justo» é, sem dúvida, uma palavra que os homens usam, mas sinto que é também a palavra que agora se aplica exactamente a mim. E como, segundo creio, as questões de beleza e felicidade se tornaram agora em asserções tão difíceis e retorcidas, dou por mim a reger-me por outros padrões: por exemplo, se algo é ou não justo ou honesto, ou universalmente verdadeiro.
De qualquer modo, creio que não tenho sido justa contigo e, em resultado disso, talvez te tenha confundido e magoado profundamente. Ao fazê-lo, porém, também me confundi a mim própria e magoei-me profundamente. Não digo isto como desculpa ou como forma de justificação, mas porque é a verdade.
p. 109, 110